CONGONHAS APOSTA R$ 350 MILHÕES — E PODE TERMINAR DEVENDO O DOBRO

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Crédito: Iphan

Em dez anos, 19º município mais rico de Minas Gerais pode ter pago entre R$ 820 milhões e R$ 860 milhões pela operação, totalizando ao menos R$ 470 milhões somente em juros

Dois votos decidiram o maior endividamento da história recente do município. A prefeitura, por sua vez, alega a necessidade de investimentos
Por dois votos. Apenas dois. Foi essa a margem que, no dia 10 de fevereiro de 2026, autorizou a Prefeitura de Congonhas a contrair um empréstimo de R$ 350 milhões. Uma votação apertada, histórica — e potencialmente explosiva para as finanças públicas da cidade.

O projeto aprovado permite ao município contratar operação de crédito de até R$ 350 milhões junto a instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central, com ou sem garantia da União. Especialistas ouvidos reservadamente classificam o modelo como “ousado”. Críticos preferem outro adjetivo: arriscado.

À frente do Executivo está o prefeito Anderson Cabido (PSB), agora autorizado pelo Legislativo a assumir um compromisso financeiro de 10 anos, corrigido pela SELIC, com juros reais de até 5,8% ao ano — podendo chegar a 6,3%, conforme o IDH-M — além de uma TAC de 2%.


R$ 7 milhões antes mesmo de começar
Só a taxa de abertura de crédito (TAC), de 2% sobre o valor contratado, representa R$ 7 milhões pagos na largada. No entanto, o impacto maior vem depois.

Em uma simulação técnica mais contida, considerando a SELIC média de longo prazo de 9% ao ano, o custo nominal aproximado da operação pode alcançar 14,8% ao ano. Como resultado, ao final de 10 anos, Congonhas pode ter pago entre R$ 820 milhões e R$ 860 milhões.

Isso significa algo entre R$ 470 milhões e R$ 510 milhões apenas em juros, fora a TAC inicial. Ou seja: a cidade pega R$ 350 milhões e pode devolver mais que o dobro. “Se não está escrito, não é compromisso”. A principal voz contrária à operação foi a vereadora do PL, Simônia Magalhães, uma das duas únicas parlamentares que votaram contra, ao lado do vereador Igor Souza.

Em discurso após a votação apertada, ela alertou: “Na última terça-feira, 10 de fevereiro, a Câmara discutiu o PL 01/2026, que autoriza o município a contratar R$ 350 milhões em empréstimo”. Nessa linha, Simônia lançou um desafio público: “Peguem o texto do projeto aprovado e procurem as palavras “Hospital”, “Centro Administrativo”, “Casas” e “Habitação”. Para a pré-candidata à Deputada Federal, apoiada pelo Presidente de Honra do PL e ex-deputado por 9 mandatos, José Santana, “se não aparece no texto do projeto, não está garantido. E se não está escrito, não é compromisso; é promessa vazia.”

A crítica central é que o projeto autoriza o endividamento, mas não detalha de forma vinculante as entregas específicas. Em outras palavras: autoriza-se a dívida agora; discute-se o destino depois. “Projeto se cumpre pelo que está no papel. O resto é discurso”, afirmou Simônia.


Um precedente inédito
O ponto que mais chama atenção, segundo a oposição, é a possibilidade de contratação com ou sem garantia da União, algo considerado atípico para um município com forte dependência de receitas minerais e sujeito às oscilações econômicas.

O cenário macroeconômico é outro fator de risco. A dívida é indexada à SELIC — uma variável sobre a qual Congonhas não tem qualquer controle. Se a taxa subir, a conta cresce. Se permanecer elevada por mais tempo, o custo final pode ultrapassar as projeções conservadoras.

E há ainda a carência: até 18 meses pagando juros antes mesmo de iniciar a amortização do principal. Traduzindo: a dívida começa acumulando encargos antes de começar a ser reduzida.


Crédito: Acervo pessoal

Vereadora Simônia Magalhães apresenta contraponto
à prefeitura e alerta para riscos nas finanças de Congonhas

Em nota, a líder do PL, Simônia Magalhães, argumentou: “além do risco financeiro embutido na operação de crédito, chama atenção o contexto fiscal em que o empréstimo foi aprovado: nos últimos anos, o Município tem ampliado despesas correntes especialmente com estrutura administrativa, cargos comissionados e manutenção da máquina pública sem apresentar, na mesma proporção, crescimento consistente em investimentos estruturantes e obras entregues. Em vez de demonstrar capacidade de fazer mais com o orçamento existente, a gestão opta por recorrer ao endividamento, o que indica desequilíbrio entre custeio e investimento. Em termos práticos, Congonhas pode estar financiando com dívida de longo prazo aquilo que deveria ser sustentado por planejamento e racionalização de gastos, transformando a expansão da máquina em justificativa indireta para um empréstimo bilionário ao longo do tempo”.

Pressa ou prudência?
Em tom crítico, a vereadora evocou uma frase do Padre Fábio de Melo para ilustrar o momento político: “Todas as vezes que você não tiver tempo para pensar, é não”.

A votação dividida reforça a percepção de que o tema está longe de ser consenso. Dois votos decidiram o maior endividamento da história recente do município. Para defensores do projeto, trata-se de investimento estratégico.

Para opositores, é um cheque em branco que pode comprometer as próximas gestões. Em tempos de incerteza econômica, Congonhas acaba de fazer uma aposta alta — e financiada em 120 parcelas.

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