Acidez Urbana – Jorn. François Ramos

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Autoextermínio
Pela segunda vez, em menos de três anos, fico sabendo, entristecido, da morte de uma ex-aluna por suicídio. Quando isso acontece com alguém próximo, sempre leva a uma comoção justificada. Afinal, nunca conseguimos encontrar motivo para uma jovem bonita, inteligente, que sempre a sorrir compartilhava conosco seus sonhos, colocar fim à própria vida.

Compaixão
Também foi motivo de tristeza, acompanhar em ambos os casos, pessoas insensíveis que, por motivação religiosa, teceram comentários acerca do pecado que restaria configurado no ato das jovens, quando na realidade deveriam endereçar às famílias palavras de conforto. Na avidez de julgar o semelhante, muitos se esquecem que cada um tem suas próprias lutas e ninguém é capaz de dimensioná-las.

Aumento
A situação que se apresenta é grave e exige reflexão. De acordo com a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, em apenas uma década os casos de suicídio aumentaram 43% no Brasil. Entre os adolescentes os números são piores, cresceram 81%. Mas, entre aqueles com menos de 14 anos o autoextermínio cresceu 113%. Esta é a consequência de uma sociedade a cada dia mais adoecida.

Alerta
Leciono há quinze anos no nível superior. Ao longo desse período tenho acompanhado muitas mudanças negativas. Jovens, ainda imaturos, são submetidos a uma enorme e contínua pressão por resultados. Para aqueles que cursam Direito, a prova da OAB deixou de ser um desafio para se tornar um pesadelo. As cobranças vêm de todos os lados: família, amigos, sociedade e claro, de si mesmos. O resultado, muitas vezes, é a depressão.

Não tem idade
Se engana aquele que pensa ser este um problema que aflige apenas estudantes universitários. A carga exagerada de matérias, cada vez mais complexas ainda no Ensino Fundamental, a exigência de distanciamento emocional dos professores (principalmente em escolas particulares) e provas classificatórias que menosprezam as qualidades e experiências de vida dos alunos, têm feito as crianças “tomarem ódio” de suas escolas. Em nome de resultados no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), a educação capitalista parece considerar o adoecimento de nossas crianças e adolescentes um “pequeno preço a se pagar”.

Terror
O modelo adotado por escolas e universidades precisa mudar, pois ele contribui, e muito, para um contexto em que, a cada dia, 38 pessoas tiram a própria vida no Brasil. Realidade que se agrava quando a Organização Mundial de Saúde (OMS), lembra que para cada autoextermínio consumado há pelo menos 20 tentativas frustradas. Educação; saúde física, mental e emocional, além, é claro, de mais oportunidades e justiça social, são fundamentais para reduzir os suicídios no país.

Tem mais
Outro mal que merece reflexão é o cigarro. Trabalho desenvolvido pelo comunicador Paulo César Garcia de Sousa durante seu MBA em Gestão Pública em Saúde, pela FACUMINAS, demonstra que o número de mortes provocados anualmente pelo cigarro é superior à soma das mortes decorrentes do alcoolismo, AIDS, acidentes de trânsito, homicídios e suicídios juntos.

Incentivo
Paulo Garcia destaca ainda que o tabagismo, responsável por mais de 160 mil mortes anuais no Brasil, é uma epidemia construída. De acordo com ele, o hábito de fumar é estimulado pelo mercado por intermédio de várias estratégias que têm como objetivo aumentar o consumo dos produtos de tabaco.

SUS
Quem paga a conta pelo aumento dos lucros da indústria tabagista é o povo. O Brasil gasta R$125,1 bilhões por ano com o impacto das doenças causadas pelo tabagismo, ou seja, o equivalente a 23% do que o Estado gastou em 2020 para enfrentar a pandemia da Covid-19. Além disso, O vício em nicotina, princípio ativo do tabaco, compromete a renda de várias famílias devido ao alto custo com o consumo de cigarros, um hábito que além de representar evidente risco para a vida, ainda é responsável pela incapacitação de milhares de pessoas por doenças provocadas pelo fumo.

Oh dó!
O subsídio de um juiz federal em início de carreira é de R$ 33 mil, fora os benefícios. Isso significa uma remuneração mensal que equivale ao que é pago pela iniciativa privada a 25 trabalhadores assalariados com o mínimo nacional. Porém, Relatório preliminar do “Censo do Poder Judiciário 2023” do CNJ mostra que 73% dos magistrados brasileiros acham que seus salários são insuficientes.

Brincadeira
A insatisfação dos magistrados é no mínimo incontroversa, pelo menos se observados os critérios para negar os benefícios da justiça gratuita ao trabalhador brasileiro. Hoje predomina o entendimento de que se o cidadão ganhar mais de 2 salários mínimos por mês, já recebe o suficiente para arcar com os altos custos de um processo.

Condecorado
Aos 74 anos, o padre Julio Lancellotti, que é coordenador da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo teve seu trabalho pelos mais necessitados reconhecido pelo governo brasileiro. No último domingo (24/9), ele recebeu das mãos do Ministro da Justiça, Flávio Dino, a medalha Ordem do Mérito, um reconhecimento por suas ações sociais. A cerimônia também contou com a presença do ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil, Silvio Almeida.

Ameaças
Nos últimos meses o trabalho de Julio Lancellotti (Foto) em favor do povo de rua tem sido alvo de ameaças, inclusive de morte para o religioso. No final de agosto, uma mensagem, deixada na porta da Paróquia São Miguel Arcanjo, na Zona Leste da capital, dizia: “seu dia de reinado aqui vai acabar”. No mesmo bilhete o padre também foi xingado e chamado de “defensor dos direitos de bandidos”.

       Foto: @padrejulio.lancellotti (Divulgação)

Direita extrema
Os ataques contra o trabalho desenvolvido pelo religioso junto às minorias foram intensificados a partir de 2017, quando Julio Lancellotti afirmou ser impressionante que, o então candidato a presidente Jair Bolsonaro, tivesse tantos seguidores apesar de seus “posicionamentos homofóbicos e violentos”. O padre chegou a ser processado por sua declaração, mas a justiça considerou que as críticas “não extrapolavam os limites do respeito e da tolerância”. Contudo, o “perdão” judicial não alcançou o coração dos bolsonaristas.

Frase
“O erro da ditadura foi torturar e não matar”
(Jair Bolsonaro, em entrevista à rádio Jovem Pan, junho de 2016)

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