Uberaba encontra-se em um franco processo de renovação política. Um ciclo que foi acelerado nas últimas eleições municipais e que restou ainda mais consistente em 2022, quando novos nomes apareceram como opção para o voto popular. Foram erguidas bandeiras até então com pouca representatividade no discurso político conservador característico da história local, o que assegurou maior visibilidade a perspectivas de inclusão, igualdade e dignidade humana. A professora Maria Abadia Vieira da Cruz, candidata a deputada estadual pelo Solidariedade, foi uma das pessoas que provocaram significativas reflexões no eleitor uberabense no último pleito. Hoje, ela é a entrevistada da coluna “Acidez Urbana!”
Foto: Marise Romano
Acidez Urbana (AU) – Quem é Maria Abadia Vieira da Cruz? Nos conte um pouco sobre você.
Professora Maria Abadia (PMA) – Sou Maria Abadia Vieira da Cruz, tenho 59 anos, sou professora aposentada, natural de Uberaba. Sou uma mulher negra, casada, mãe e avó. Possuo pós-graduação em Gestão Escolar e Ciências das Religiões pela UFU. Atualmente, ocupo o cargo de presidente do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, representando o segmento cultural. Ao longo da minha trajetória, carrego práticas sociais que são pautadas pela promoção da igualdade, na luta antirracista e nos valores democráticos. Acredito firmemente que a verdadeira democracia passa pela compreensão de que somos coletivos, e que o progresso demanda retidão de caráter, ética, compaixão e trabalho em prol do bem-estar de todos. Minha fé é um pilar importante em minha vida, e acredito no poder transformador da educação. Para mim, amor e justiça social são fundamentais para alcançar a transformação que almejamos. Sou filha de Ivanda Martins Vieira, técnica de enfermagem e professora de geografia aposentada da rede municipal, e de Sebastião Miguel Vieira, pedreiro falecido. Além disso, sou neta de Aparecida Conceição Ferreira, fundadora do Hospital do Pênfigo, um espaço dedicado ao amor e respeito à vida. Meus passos e vivências têm sido guiados por essa corrente de amor, contribuindo para o projeto de educação transformadora e a essência restauradora da vida. Sou uma mulher de fibra e coragem, com posicionamento claro e objetivo em relação aos valores que defendo, sempre respeitando toda forma de diversidade. Para mim, o diálogo e a escuta são portas abertas para qualquer ação que realizamos. Afinal, sou uma mulher com propósito.
AU – Você é neta de uma das maiores personalidades de Uberaba, a saudosa dona Aparecida, do Hospital do Fogo Selvagem. Como foi crescer ao lado dessa pessoa reconhecida por sua caridade, solidariedade e amor ao próximo? Qual legado ela deixou para a sua vida?
PMA – Crescer e viver com a vovó foi um presente de Deus. Dona Aparecida nos ensinou a viver conectados uns com os outros, compreendendo que a dor do próximo também é nossa dor. Ela nos transmitiu a mensagem de que a verdadeira felicidade reside no estado de alma impregnado de humildade e amor. Além disso, nos instruiu a perceber que nossa consciência alcança plenitude quando estamos dispostos a auxiliar todos que necessitam de nossa cooperação. Dona Aparecida nos ensinou que fazemos parte da grande teia da vida e que é imperativo evoluirmos moralmente, expressando afeto e amor para aqueles que mais necessitam, deixando de lado o egoísmo e o individualismo em nós. Ela destacou que a verdadeira felicidade está intrinsecamente ligada ao bem que proporcionamos aos outros. O legado que carrego para toda eternidade é o chamado para ser servo, servir com humildade e amor, e nunca se importar com a opinião alheia. Afinal, é a nossa consciência que sempre ditará o valor do nosso trabalho. Portanto, a receita para a felicidade é clara: faça seu irmão de caminhada feliz através do trabalho, do serviço e do amor contínuo.
AU – Em 2022, você se tornou uma das novas lideranças femininas da política uberabense ao ser candidata a deputada estadual pelo partido Solidariedade. Durante a campanha você provocou uma importante reflexão sobre a representatividade política dos afrodescendentes brasileiros. Você diria que as lideranças negras se fizeram ouvir nas últimas eleições?
PMA – Aqueles mais experientes, nós e as novas gerações, estamos construindo caminhos para alcançarmos e sermos ouvidos em nossa plenitude. Atualmente, vemos lideranças que estão se fortalecendo, tornando-se verdadeiros portais para que a fortaleza negra e parda seja abraçada com respeito por todos. Este é um avanço significativo, mas ainda há mais a ser feito. Não podemos esquecer que passaram apenas 135 anos desde a abolição da escravatura, e o racismo continua impregnado em nossas estruturas. Apesar desses desafios, estamos começando a ter oportunidades para nos fazer ouvidos e, à medida que somos ouvidos e ouvidas, as mudanças começam a se estruturar. No governo federal, já observamos um sinal de escuta com 11 ministros que se declaram negros. Destaco personalidades como Silvio Almeida, Anielle Franco, Marina Silva, Margareth Menezes, Luciana Santos, Wellington Dias, Rui Costa, Flávio Dino, Carlos Lupi e Waldez Gomes. Além disso, no Congresso Federal, temos a presença de Dandara Tonantzin, representando uma diferença significativa. A reitora da UFTM, a doutora Marinalva Vieira Barbosa, é uma mulher negra que também se destaca. Acredito que nossas lideranças têm caminhado e se fazendo ouvir. O aumento da participação de negros e negras nas últimas eleições é um indicativo positivo desse avanço.
AU – Após séculos de exploração, imerso em um regime escravocrata marcado pelo completo desprezo aos mais elementares direitos humanos, o Brasil se tornou último país a abolir a escravidão. Você diria que, em pleno século XXI, o desrespeito aos direitos dos afrodescendentes é uma chaga dessa história?
PMA – A história escravocrata deixa esta chaga aberta. Mesmo no século XXI, testemunhamos esse triste filme se desenrolar em nossa tela social a cada respirar. Basta abrir um jornal, ligar a TV, e o retrato das mazelas sociais tem cor e classe social, infelizmente, evidenciando a persistência de desigualdades no Brasil.
AU – Pesquisa divulgada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no final do ano passado confirmou que trabalhadores negros e negras ocupam cargos piores, recebem salários menores, têm mais dificuldade para conseguir empregos e estão em trabalhos precarizados. Como enfrentar o racismo no mercado de trabalho?
PMA – O racismo no mercado de trabalho demanda um esforço sério de toda a sociedade. É crucial compreender a estrutura do racismo desde a abolição da escravatura, quando o negro foi marginalizado da sociedade, sem direitos. As medidas de proteção social para os escravizados libertos não foram implementadas, deixando-os à própria sorte. Consequentemente, eles enfrentaram discriminação e foram relegados a aceitar salários mínimos para sua subsistência. Enfrentar esse desafio exige a união de todos, com o entendimento e o desejo de mudar esse cenário social. Políticas afirmativas são essenciais para fortalecer e criar oportunidades reais para a comunidade negra. Além disso, é necessário proporcionar educação de qualidade com equidade, incluindo cotas reparadoras. A implementação de políticas afirmativas eficazes que promovam mudanças reais é crucial. É imperativo enxergar, compreender e desejar a transformação. Ao abraçarmos todos, brancos e negros, em uma luta comum, teremos as condições necessárias para redesenhar essa rota. Isso inclui cursos formativos com vagas de emprego direcionadas para a população afrodescendente, bem como propostas de projetos específicos para esse público, visando proporcionar oportunidades de emprego e desenvolvimento social.
AU – Um projeto educativo criado pela rede corporativa LinkedIn e pelo Think Eva aponta que as mulheres pretas e pardas e de baixa renda são as principais vítimas de assédio sexual no trabalho. A que você atribui o crescimento deste tipo de violência? Como combatê-la?
PMA – A situação é resultante da desigualdade de gênero persistente no mercado de trabalho. A percepção de que a mulher negra tem poucos recursos para se posicionar levou ao aumento alarmante de assédio sexual, gerando um ambiente moralmente prejudicial em que a mulher negra é tratada como mercadoria e considerada disponível. O silêncio das vítimas ao não denunciar fortalece esse crime, e as represálias que algumas empresas impõem quando as vítimas relatam o assédio também fortalecem o poder do agressor. Acreditar nas políticas afirmativas e no fortalecimento de espaços por meio de palestras, rodas de conversa e dos conselhos da mulher, igualdade racial e diversidade é essencial. Agindo de maneira coletiva, podemos criar oportunidades para mudanças significativas. Isso implica não apenas em políticas organizacionais, mas também na promoção de uma cultura que não tolera o assédio sexual e que oferece apoio efetivo às vítimas, encorajando a denúncia e garantindo que represálias não sejam toleradas.
Foto: Acervo da entrevistada
AU – A violência contra as minorias é uma realidade concreta no Brasil. Um mal que atinge também a todos aqueles que se dispõem a lutar pelos menos favorecidos. Hoje, o padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo é uma das vítimas mais conhecidas. No passado, em Uberaba, sua avó, a dona Aparecida, do Lar da Caridade, e Chico Xavier, já sofreram com a mesma intolerância emanada por aqueles que têm aversão aos pobres. O que motiva tanto ódio?
PMA – Acredito que o temor reside na potência do indivíduo bem instruído, bem alimentado e consciente de seus direitos, alguém que valoriza a própria existência. Ao transformar sua vida, influencia indiretamente a vida daqueles ao seu redor, deixando de ser uma mão de obra barata e assumindo uma postura de cidadão crítico e atuante, com opinião própria. Esse indivíduo tem o poder de mudar o sistema de uma cidade, recusando-se a se vender e tornando-se o sujeito de sua própria história. Ao fortalecer-se, ele adota a democracia como sua bandeira, tornando-se uma figura perigosa para aqueles que exercem controle desmedido. Os verdadeiros temores não recaem sobre os pobres, mas sim sobre aqueles que se fortaleceram e não serão mais manipulados. Nós, como agentes sociais, somos indesejáveis para esses indivíduos que se consideram donos do mundo. Essa resistência ao controle, aliada à busca por autonomia e conhecimento, representa uma ameaça para aqueles que preferem manter o status quo e o domínio sobre as massas.
AU – Como educadora que é, você sabe que desde 2003, com o advento da Lei 10.639, a História e a Cultura Afro-Brasileira e Africana foram incluídas no currículo oficial da educação nacional, o que foi uma conquista fruto de anos de lutas dos movimentos sociais, em especial do Movimento Negro. Pergunto: De que forma essa diretriz pode contribuir para a efetivação da igualdade racial?
PMA – Essa diretriz efetiva a igualdade racial a partir do momento em que reconhece a importância de conhecer a história da África e dos afro-brasileiros, compreendendo que a educação é libertadora e nosso maior recurso no combate ao racismo. Essa abordagem proporciona: Construção, pela escola, de seu projeto de trabalho em prol de uma educação antirracista, partindo das necessidades de sua comunidade; convocação do Conselho Municipal de Educação para elaborar e monitorar a Proposta Curricular da Cidade para a Educação das Relações Étnico-Raciais; busca, junto às Universidades Federais e particulares, de formações para as equipes escolares na temática da lei 10.639/03 e 11.645/08; modificação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (9394/06) em seus artigos 26 e 26A; trabalho da história da África e da cultura afro-brasileira, destacando sua contribuição na arte, ciência e cultura da sociedade local; proporciona o respeito às matrizes religiosas do povo afro-brasileiro e indígena; em comemoração ao 20 de novembro, realiza uma grande mostra cultural com as vivências do ano escolar, promovendo a Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER); monitoramento, avaliação e reelaboração das ações para o ano seguinte. Essas medidas demonstram um compromisso efetivo com a promoção da igualdade racial através da educação, abordando diferentes aspectos para construir uma sociedade mais justa e inclusiva.
AU – Em 2022, como candidata a deputada estadual, você apresentou várias propostas para fomentar a igualdade racial e estimular maior consciência sobre a importância da relações etnorraciais para o aperfeiçoamento humano e o desenvolvimento de uma cultura de paz. Alguma dessas propostas poderia ser implementada também na esfera dos municípios?
PMA – Sim, as propostas apresentadas podem ser adaptadas para a esfera municipal, considerando que são direcionadas para o coletivo da nossa população. Estas propostas refletem a necessidade de políticas afirmativas, acolhedoras e voltadas para o bem-estar social, atendendo aos anseios da comunidade. Adaptar essas iniciativas para o contexto municipal permitirá uma implementação mais direcionada e eficaz, considerando as necessidades específicas e características da população local.
AU – Vários “poderosos” ficaram insatisfeitos quando a prefeita Elisa Araújo preteriu nomes mais “antigos” na política local para franquear apoio à sua candidatura como deputada estadual, algo motivado, segundo a chefe do Executivo, por acreditar no valor das suas propostas. Pois bem, as eleições municipais se aproximam e muita gente quer saber: Existe a possibilidade da professora Maria Abadia e da atual chefe do Executivo municipal estarem unidas em um projeto maior por Uberaba?
PMA – Continuamos com nosso ideal e compromisso com políticas públicas voltadas para o bem social e educacional da nossa comunidade. Não me preocupo com a opinião de nenhum grupo político. Fui candidata apoiada pelo governo e executei o meu trabalho. Mesmo não tendo sido eleita, persisti em contribuir para as causas nas quais acredito. Minha preocupação é, de fato, com o bem-estar de cada cidadão uberabense, sendo esse meu principal foco de trabalho em qualquer situação, sempre alinhado com um legado familiar. Quanto ao meu futuro político, dependerá das convenções e propostas do grupo político ao qual faço parte. Elisa também está em nosso grupo, e juntas buscamos sempre o melhor para Uberaba.

